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lua e viola

lua e viola

08
Mai18

Luiz Gonzaga do Nascimento

lua e viola

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O Fenômeno LUIZ GONZAGA no nordeste brasileiro é algo selado por todas as gerações vindouras. Explicar tal fenômeno é abrir a boca e dela não sair sequer uma palavra coerente.

O nome e a figura deste homem mistura-se com a terra, com o mato, com as aves e a zoada do chocalho da melancólica vaca magra. LUIZ GONZAGA tem presença marcante no sertão nordestino como o sol causticante, que purifica tudo.

LUIZ GONZAGA é também pureza. Pureza de um povo, de uma nação que infelizmente está em extinção: os sertanejos. São estes homens o alicerce do Brasil, são os que mais cedo acordam e ao cair da noite se retiram calados. 

Luiz é a voz desse povo tão incompreendido, que não consegue falar e canta.

LUIZ é sorriso solto, como asas brancas no ar, é aquele abraço fraternal que se dá num velho e querido amigo. 

Mas LUIZ também. É muito dia que não acaba. É aquela pontinha de esperança em alguma coisa. É a chuva que não veio. É a fogo-pagou, é o assum preto que não quer vê tudo tão seco.

LUIZ é um invasor. Logo cedo, o radinho comprado ou na capital ou em São Paulo toca "Riacho do Navio", "A Triste Partida", "Ovo de Codorna"... Canções que invadem o ar de casinhas pequenas de chão batido e de retrato de Padre Cícero na parede.

LUIZ é aquela baforada boa de um "braço de judas" na porta de casa, onde um cachorro magro rói um osso de dois dias.

LUIZ GONZAGA é o filho Januário.

LUIZ é também dia de feira, pó de arroz, farinha, peixe salgado, miudeza, doce, fava da melhor, galinhas gordas e tranças de corda estendidas na rua.

LUIZ é aquela explosão e um forró, de um rela-bucho, o gemido de uma sanfona, uma zabumba bem tocada, uma boa lapada de cana. É aquele fungadinho no cangote, o olhar desconfiado e caído, é o trote do cavalinho crioulo baixeiro.

LUIZ GONZAGA é muito mais coisa do que ele é. É aquela noite que, de repente pipoca do céu lágrimas dos anjos, e cai arrastando xique-xique, aroeira, mandacaru, jurema preta, e sangra os açudes e enche os rios.

É aquele cheiro de mato verde, é o compadre da fogueira, o padrinho, o filho que foi pra longe.

LUIZ GONZAGA é sinônimo de uma infinidade de coisas, de cenas, de costumes. É o rei de um povo poderoso, que não conhece o seu poder. Ele sozinho é muita coisa linda e muita coisa triste. Ele é a árvore que ninguém sabe o tamanho. 
LUIZ é muita fé, muita sinceridade, muita confiança no semelhante e no ato de viver. LUIZ GONZAGA retrata sentimentos de uma enorme quantidade de brasileiros que, se sabem falar, ficam mudos.

Aí ele pega a sanfona e um chapéu de couro e canta. E encanta.

LUIZ GONZAGA não é apenas um rei, ou um líder, um espelho ou um extra-normal. Este fenômeno é um dos poucos símbolos de unidade nacional brasileiro, é uma somatória do Nordeste num homem só.

LUIZ GONZAGA é uma bandeira. Uma bandeira eterna.

(Luís Manoel Paes Siqueira – Recife, 15/01/79).

(Luiz Manoel era um jovem universitário de 18 anos, na época que escreveu esse texto em 1979, antes de conhecer Luiz Gonzaga pessoalmente).

 

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