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lua e viola

lua e viola

27
Abr18

Caio Fernando Abreu

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... entre tantos de Caio Fernando Abreu, que eu amo... Vai este que é um dos meus preferidos.



“Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim. Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além dajanela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beira- da da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.”

 


.
© Caio Fernando Abreu

26
Abr18

J G de Araújo Jorge

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... J G de Araújo Jorge, poeta além do tempo, desde adolescente que amo os seus poemas e até hoje poucos falaram de amor igual a ele.

 

Vi nos bancos dos jardins
aos casais, os namorados.

E pelas ruas passeando
lá se vão de braços-dados.
Vi outros tantos nas praias
estavam juntos, deitados.

E ao longo das amuradas
parecem-se aos passarinhos
quando nos fios, pousados...
........................................................................

Só nossos braços vazios,
como dois elos quebrados...

Só nós... morrendo de amor
... e vivendo... separados...


.
© JG de Araujo Jorge, Desolação
do livro"A Sós..." 1a ed. 1958 )

Fotografia de Fred Jr. do sitehttp://olhares.uol.com.br/

26
Abr18

Carlos Nejar

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... um belo poema de Carlos Nejar, com a belíssima fotografia de António José Cravo
 

Os anos, Elza, já não gravam nada,
porque gravamos nós o tempo todo.
O teu cuidar, faz-me animar o fogo
e cada dia em nós, jamais se apaga.

Provados somos e o provar é um gomo
desta romã partida pelas águas.
Somos o fruto, somos a dentada
e a madureza de ir no mesmo sonho.

Os anos, Elza, não consertam mágoas,
mas as mágoas não correm, se corremos.
Não encanece a luz, onde são remos

da limpa madrugada, os nossos corpos.
Amamos. No existir estamos soltos,
soltos de imensidão entre as palavras.


© Carlos Nejar, Soltos de imensidão

 

23
Abr18

Jackson Mascarenhas Cunha

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... de um  recorte de um velho Jornalzinho da Telabahia:


que ainda não seja tarde
que se possa conseguir todo o tempo
perdido por nós.
que haja um encontro inesperado numa
praça,
que ainda haja uma praça, um encontro 
e nós.
que ao nos revermos
estejamos ganhando apostas de cervejas,
que esteja chovendo mas continue claro o
ambiente por questão de reconhecimento de 
ternuras.
nada falaremos a princípio
a princípio, deixaremos que todas as pessoas
passem por nós.
e só então, buscaremos beijos perdidos
e por mais força que tenhamos
acredito que haverá lagrimas de felicidade.
feliz cidade essa
que contém uma praça, 
que abraçou um encontro,
que nos deixou livres das pessoas
e fez do ambiente um pouco de chuva mais
claro por questão de gosto que não se
discute.
que não seja mais cedo
mas não muito tarde para uma 
impossibilidade de amor.
que seja um instante certo de um encontro
furtivo de ambas as partes.
que seja uma paixão instantânea e 
incontrolável,
que seja uma relação que se esgote todo o
tempo perdido,
que seja calma e desesperada.
calma, por uma questão de orientação e
método
desesperada por uma questão de amor.


(Passagens... - Jackson Mascarenhas Cunha – CML 1)

23
Abr18

Elisa Lucinda

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... duas paixões: essa fotografia que infelizmente não sei o autor e esse poema da Elisa Lucinda:

 

Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.

Sempre quis uma amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse. 

Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.

Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.

Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.

Sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.

Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.

Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.

Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.

Sem senãos.

Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.

Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.

Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.

Sempre quis um amor não omisso
e que suas estórias me contasse. 

Ah, eu sempre quis uma amor que amasse.


©Elisa Lucinda, Da Chegada do Amor 
Poesia extraída do livro "Euteamo e suas estréias", Editora Record - Rio de Janeiro, 1999,
 

 

16
Abr18

Ciro Vieira da Cunha

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... saudade: um tema eterno, esse poema de Ciro Vieira da Cunha, diz muito sobre esse sentimento que faz parte da nossa vida enquanto por aqui estivermos, e ficará no coração dos que aqui permanecerem.

 

Saudade! teu olhar longo e macio 
Derramando doçura em meu olhar... 

Um bocado de sol sentindo frio, 
Uma estrela vestida de luar... 

Saudade! pobre beijo fugidio 
Que tanto quis e não cheguei dar... 
A mansidão inédita de um rio 
Na volúpia satânica do mar... 

Saudade! o nosso amor... o teu afago... 
O meu carinho... o teu olhar tão lindo... 
Um pedaço de céu dentro de um lago... 

Saudade! um lenço branco me acenando... 
Uma vontade de chorar sorrindo, 
Uma vontade de sorrir chorando...

.
© Ciro Vieira da Cunha, Saudade
Imagem: de Pedro Moreira
do site: https://www.olhares.com/



16
Abr18

Fernando de Aviz

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SE EU TE PERDER, talvez acabe por viver um pouco em paz, sem tensões e sem ansiedades, sobretudo sem angustiosas esperas por impossíveis sonhos.


SE EU TE PERDER, com certeza sobrarão horas para executar pequeninas coisas, sempre adiadas ou esquecidas: arrumar gavetas, consertar defeitos dos objetos, rasgar papéis, limpar armários, doar velhas roupas, atualizar correspondências, visitar velhos amigos, ler o dia inteiro, passear no calçadão, sentar à beira-mar, ouvir o barulho da chuva caindo e, com grande disponibilidade, chorar... chorar e chorar.

SE EU TE PERDER enfrentarei, essencialmente, o sólido e espinhoso entendimento de que o amor possui muitos caminhos. Saberei, sangrando, que o rumo da saudade é a única trilha para chegar à cura da paixão. Sentirei, pulsando, que todo afeto sulca marcas no invisível do que somos, daí resultando o visível vir-a ser, no que fomos.

SE EU TE PERDER buscarei todas as desconhecidas estratégias do recomeçar: pintar novos cenários existenciais, com novos pincéis que fabricarei em nome do desespero de viver; ouvir músicas que jamais passaram pelo meu repertório favorito, tentando nelas descobrir significantes e significados ignorados: reavivar o quanto dos meus desejos e prazeres infantis ainda estão insepultos, a despeito do muito que deles deixei enterrar, por obediência às convenções e às imposições; (re)acender o derradeiro fogo vivo que sempre iluminou minha busca pela felicidade, e que foi justamente apagado quando me levaste à terna sombra de um convívio, onde nossos corpos começaram a ter luz própria.

SE EU TE PERDER pedirei ao primeiro pássaro volateante que leve minha mensagem a todos os solitários, por aí abandonados: - É preciso crer que tudo muda – as pedras mudam, os tempos mudam, os amores mudam, de um sol para uma lua. E mais: seguirei das formigas o andejar, delas assimilando lições de cooperação, de servir, no destino do imenso formigueiro que é o mundo, sobre o qual passamos... passamos... passamos... felizmente. 

SE EU TE PERDER em conseqüência de todos os meus erros, reconsiderarei idéias básicas sobre “posse” e “liberdade”. Proclamarei minhas falhas, revelarei as tuas – se é que existiram -, e tentarei, por vias que desconheço, atingir a tranqüila serenidade de não exigir dos outros o que não posso cobrar de mim mesmo. 

SE EU TE PERDER, todas essas aprendizagens acima descritas deverão ser vivenciadas e consolidadas – eis o que me dizem os amigos, os analistas, os conselheiros de rua, os experientes da vida, os professores de humanismos vários, os filósofos, os psicólogos e, até, os metafísicos. Porque eles sabem de tudo e possuem remédio para todos os males.

QUANTO A MIM, com toda a loucura de existir que é a minha plena lucidez, só posso incansavelmente afirmar: SE EU TE PERDER, NÃO SEI COMO ME ENCONTRAR.

 


©Fernando de Aviz, Se eu te perder

16
Abr18

Juan Ramón Jiménez

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Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária. 

Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma. 

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas. 

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens. 

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.


©Juan Ramón Jiménez, Eu não voltarei
 

 

15
Abr18

Lília Chaves

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Se o silêncio persistir 

procura-me entre os relógios 
e aquele pássaro 
(na gaveta) 
eu sou a pena antiga 
eu sou a ilha do desenho 
(queimado) 
de nanquim 
sou a cinza das cartas 
entre os túmulos 
e esta idéia gêmea em nossos corpos 
(sem par). 

Se o silêncio persistir 
respira-me nos confins das noites 
(no patchuli do meu aroma) 
e deixa partir teu pensamento: 
estou na canoa sem porto 
feita de vento 
e miriti. 

Não reveles da caixinha 
o segredo laqueado 
e guarda o amor dos teus plurais 
toca-me na capa de couro 
dos cadernos teus de sonho 
relembra impresso 
o tempo nosso das palavras 

E beija-me o silêncio... 
sou este beijo que ficou 
em teu lábio 
pendurado.


©Lília Chaves, Se o silêncio

 

 

14
Abr18

Maria da Conceição Paranhos

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Maria da Conceição Paranhos, poeta baiana cuja poesia é um brinde ao bom gosto dos que amam essa arte. Essa é uma das minhas preferidas:

 
Preparei a casa para te esperar: 
procurei nos cantos o passado 
e engastei-o à soleira da porta, 
petrificado em dor, mas refulgente. 
 
Não foi necessário mudar de casa 
para te esperar. Bastou a tua vinda, 
ainda de madrugada, para que tudo mudasse, 
e a lua crescente surgisse ao meio dia. 

A cama está feita, a mesa está posta, 
nas compoteiras brilham sobremesas 
feitas para adoçarem a tua boca 
quando a vida amargar, travar-se o riso. 

Meu corpo não é o mesmo de ontem, 
mas é mais virgem, através das horas, 
que me apartaram de outros desejos 
dos quais me afasto, emigrada de mim mesma. 

Foi gratuito o teu chegar. Por isso fica: 
permanece em mim e esquece a lágrima. 
Te esperei para chamar-te "meu amor", 
embora ingressem em minha voz e corpo 

antigas sereias, com pentes de espelhos, 
a retrançar meus cabelos destrançados, 
e te convidem para o sábio mergulho 
onde habitaremos: nós e o tempo.


©Maria da Conceição Paranhos, Luz Inesperada 
(do livro Esporas do Tempo, Prêmio Copene, 
lançado no Museu Costa Pinto, Salvador, BA, 20.06.96)
 
 
 

 

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