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lua e viola

lua e viola

24
Mai18

Drummond

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Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
 

 ©Carlos Drummond de Andrade

24
Mai18

Paulo Coelho

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Quem já perdeu alguma coisa que tinha como garantida, termina por aprender que nada lhe pertence. E se nada me pertence tampouco preciso gastar o meu tempo cuidando das coisas que não são minhas.

 


©Paulo Coelho

24
Mai18

Mário Quintana

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É a mesma ruazinha sossegada
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para quê?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que inda anunciam: - alegria – risos
Depois do Circo já ter ido embora!...



©Mário Quintana, É mesma ruazinha sossegada
Para Emílio Kemp

23
Mai18

Mário Quintana

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Estou sentado sobre a minha mala
No velho bergantim desmantelado...
Quanto tempo, meu Deus, malbaratado
Em tanta inútil, misteriosa escala!

Joguei a minha bússola quebrada
Às águas fundas... E afinal sem norte,
Como o velho Sindbad de alma cansada
Eu nada mais desejo, nem a morte...

Delícia de ficar deitado ao fundo
Do barco, a vos olhar, velas paradas!
Se em toda parte é sempre o Fim do Mundo.

Pra que partir? Sempre se chega, enfim...
Pra que seguir empós das alvoradas
Se, por si mesmas, elas vêm a mim?


©Mário Quintana, Estou sentado sobre a minha mala
De “A Rua dos Cataventos” em “Prosa & Verso”, Ed. Globo, 1978

23
Mai18

Cezar Ubaldo

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Envolto,
por grades 

estrangulado

não sonho,não canto.

E até mesmo a minha alma
de pássaro
chora ao mirar a liberdade
lá fora...

 

 

 ©Cezar Ubaldo Araujo, Homem
Imagem: Margarida Delgado

 

23
Mai18

Mário Quintana

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Súbito
Em meio àquele escuro quarteirão fabril
Das minhas mãos se escapou um pássaro maravilhoso
E eu te amei como quem solta um grito.

Ó Lua enorme
Incompreensível...
Por que sempre me espantas e me assustas, Louca,
Como se eu te visse sempre pela primeira vez?!

©Mário Quintana

22
Mai18

Flora Figueiredo

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Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia,
atropela minha hora,
despreza minha agenda.
Corre prepotente
a disputar lugar com a ventania.
O tempo envelhece e não se emenda.

Deveria haver algum decreto 
que obrigasse o tempo a desacelerar
e a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria conta
dos livros que vão se empilhando,
das melodias que estão me aguardando,
das saudades que venho sentindo,
das verdades que eu ando mentindo,
das promessas que venho esquecendo,
dos impulsos que sigo contendo,
dos prazeres que chegam partindo,
dos receios que partem, voltando.

Agora, que redijo a página final,
percebo o tanto de caminho percorrido
ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo e sua pressa desleal,
agradeço a Deus por ter vivido,

amanhecer e continuar teimando.



©Flora Figueredo
Imagem: Elaine Cristine

 

22
Mai18

José Fanha

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Para Mia Couto
 
 
Elefantemos portanto.

Deixemos esta tão precária pele
Aprender outros saberes

Deixemos
Portantomente
O olhar do paquiderme
Ensinar ao passarinho
As paisagens do deslumbre
Das escritas mais antigas.

Permitamos que o vento sopre.
E que a pedra exista.
E que o sol dispare a sua fúria
Em todas as direcções.
E que a lua se entretenha
No seu jogo de brilhar.

Elefantemos portanto.

Ou,
Melhor dizendo,
Permitamos que um silêncio muito antigo
Venha
Carregado de silvos e sussurros
Venha
Conduzir-nos a palavra
Pelas veredas impalpáveis
Do mistério.
 
 
©José Fanha, Elefantemos 
Imagem: Em caminhos das Missões http://floripacool.wordpress.com/
 
José Fanha, poeta português a mim apresentado por António José Cravo, maravilhoso fotógrafo (também português), profundo conhecedor das artes em geral, e que tem a doce mania de nos presentar com coisas belas.

Obrigada!

 

19
Mai18

Mário Quintana

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Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem…
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela…

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz…
Aquela última estrela

E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos…
De onde fugiram todos os retratos…

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!…



©Mário Quintana
Imagem: Rain Benches

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